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A Biblioteca de Urbino*
Julia Cartwright
“O orgulho, porém,
do palácio de Urbino era a
biblioteca ducal, que ocupava duas salas do térreo, à esquerda da entrada
central. A primeira era um corredor abobadado de 122 x 55m, com estantes ao
longo das paredes, e acima delas janelinhas abertas para o norte, que
Bernardino Baldi (1533-1617) nos diz que espalhavam
suave luz difusa, aquecendo a sala no inverno e refrescando-a agradavelmente (freschissima) no verão.
A sala mais ampla e
interna levava o nome de La Cancelleria,
pois continha os arquivos ducais e papeis estatais. Nela, os espaços entre as
estantes era decorado com uma série de afrescos alegóricos, representando as
Artes e Ciências, pintados (segundo o Dr. Schmarsow) por Melozzo de Forli, mas atribuídos pelos
críticos mais recentes ao mestre flamengo Justus de Ghent. Retratos das três filhas mais velhas de Federico: Elizabetta, Giovanna e Costanza, com seus maridos Roberto Malatesta
de Rimini, Giovanni della Rovere e Antonio, Príncipe de Salermo
foram incluídos nesses quadros, enquanto seu cunhado Coastanzo
Sforza de Pesaro, diz-se
que é o mais jovem representado no painel de Música, o qual, juntamente com o
de Retórica, acha-se hoje na National Gallery. Seu sobrinho e ministro Ottaviano
Ubaldini, aparece como Ptolomeu no tema de
Astronomia, e o próprio Federico, usando barrete
vermelho, é visto ajoelhando-se aos pés do mestre que fala sobre Dialética. Ambas
estas pinturas singulares, como são chamadas pelo poeta Mercatello,
estão agora no Museu de Berlim. À volta do friso desta sala lê-se a seguinte
inscrição, em grosseiros hexâmetros latinos,
curiosamente característicos das aspirações humanísticas da Renascença:
Nesta casa tendes
prosperidade, travessas de ouro, abundância de dinheiro, multidão de serviçais,
gemas rutilantes, joias ricas, cadeias e cintos
preciosos. Mas aqui se mostra um tesouro que de longe excede todos esses
esplendores. Nestas salas tendes colunas de mármore
níveo e dourado, conjunto de figuras pintadas pelos desvãos; dentro, as paredes
sustentam a história de Troia; fora estão jardins
perfumados com flores viçosas e folhagens verdes. Tanto fora como dentro, a
casa é gloriosa. Tudo isso, porém, é inócuo: somente a biblioteca é eloquente. Falando ou guardando silêncio, os livros têm o
poder de ser útil e encantar o leitor. Eles ensinam a história do passado e
revelam o sentido do futuro. Expõem os trabalhos da terra e divulgam o conhecimento
do céu.
Essas palavras introduziam o visitante na
biblioteca que Federico chamava a joia
mais fina de sua coroa. “Com grandes despesas, escreve Castiglione,
o duque colecionava grande número de raríssimos e preciosos livros gregos,
latinos e hebraicos, que ele adornava de ouro e prata, tendo-os como os bens
supremos de seu grande palácio.” Tanto Mercatello,
que escreveu em 1473, como Giovanni Santi, cujo poema
foi dedicado dez anos mais tarde a Guidobaldo, filho
de Federico, salientam o tamanho e a excelência do
acervo, e enaltecem a beleza e valor dos manuscritos nele contidos. Mas o
melhor registro que possuímos da biblioteca ducal provém da pena de Vespasiano de Bisticci que,
depois de ser contratado por Cosimo de’ Médici e pelo
papa Nicolau V, para coletar manuscritos e organizar suas bibliotecas, foi para
Urbino em 1472 e dedicou os restantes anos da vida em
servir Federico. Foi ele que classificou a biblioteca
ducal, dividindo-a em quatro seções: teologia, filosofia, história e poesia,
disposição essa inicialmente adotada pelo Vaticano e ilustrada mais tarde nos
afrescos de Rafael. O livreiro florentino não consegue conter seu espanto e
admiração à vista dessa famosa e excelente biblioteca, que ele afirma muito
superior a qualquer outra formada nos últimos mil anos.
Que livros
maravilhosos! — exclama —. Que manuscritos raros! Que obras preciosas! Tudo
colecionado sem olhar os custos, tudo superlativamente belo, tudo escrito com a
pena e elegantemente iluminado! Sempre que o Duque ouve falar de um manuscrito
raro, manda buscá-lo imediatamente, e durante os últimos catorze anos tem
mantido trinta e quatro copistas permanentemente empregados em Urbino, Florença e outras partes da Itália. Desse modo
conseguiu obter algo único no mundo!”
Numa águia de bronze
no meio da sala ficava a famosa Bíblia Urbino,
encadernada em brocados de ouro e prata, ricamente adornada de miniaturas, hoje
ainda orgulho do Vaticano. Vinha depois a Bíblia Hebraica,
que se dizia ter o Duque recuperado durante o cerco de Volterra; e o Dante iluminado com a águia de Montefeltro e Garter, bordada em
pérolas na capa. Um Saltério Poliglota em hebraico, grego e
latim, cosa amirabile ed eccellentissima, provocava particularmente a admiração
de Vespasiano, enquanto Mercatello
discorre entusiasmado sobre uma cópia da Cosmografia de Ptolomeu, com
ilustrações das montanhas, rios e pontes descritos pelo geógrafo grego. Todos
os poetas latinos, com os melhores comentários,
todos os historiadores gregos e romanos conhecidos, as obras completas de
Cícero, os escritos dos Padres da Igreja e os principais doutores medievais e
modernos, de Tomás de Aquino ao papa Pio II, incluíam-se no acervo. Além destas
obras históricas e teológicas, os mais importantes tratados de geometria,
astrologia, matemática, direito, medicina e física encontravam-se nas estantes,
junto com incontáveis trabalhos sobre táticas
militares, arquitetura, pintura e música. Cada livro encadernado em carmesim e
com fechos de ouro e prata, e todos em cópias completas: “uma perfeição,
observa o escritor florentino, não encontrável em nenhuma outra biblioteca”. Vespasiano podia falar com autoridade sobre o assunto, pois
em 1482, pouco antes do Duque deixar a casa para sua última campanha, o
bibliotecário cotejou o catálogo que preparara com os do Vaticano, de São
Marcos de Florença, de Pádua e da Universidade de Oxford, e descobriu que era o
único que não possuía duplicatas nem cópia imperfeitas. Não é, portanto, de
admirar que os mais renomados estudiosos fossem
atraídos de todas as partes do mundo para o palácio que continha tais tesouros
sem preço. ‘Eu mesmo, escreve Giovanni Santi, vi homens do mais apurado gosto, mergulhados no
estudo desses volumes preciosos.’
A biblioteca que Frederico formara era, como se
podia esperar, o cuidado especial de seu filho. Este acrescentou grande número
de obras valiosas ao acervo, gastando largas somas para obter manuscritos
antigos e para empregar os melhores humanistas que o assessorassem nesse
trabalho. Alguns sábios notáveis: Agabito, Lorenzo
Abstêmio e o cronista Federico Veterani
ocuparam sucessivamente o posto de bibliotecário em sua corte, e um conjunto de
regras curiosas e minuciosas foram estabelecidas para sua gestão e proveito dos
estudiosos, que visitavam Urbino.
O bibliotecário deve
ser instruído e ter boa presença, tranquilo de
temperamento e educado nas atitudes, cuidadoso e fluente no falar. Deve manter
inventário completo dos livros da biblioteca e cuidar para que estejam bem
arquivados e de fácil acesso, seja os de latim, grego, hebraico ou italiano;
deve conservar também as salas em boas condições. Os livros devem ser
preservados contra danos de umidade e vermes, bem como das mãos de pessoas
ignorantes, sujas e descuidadas. Quando personalidades cultas e importantes
visitam o palácio, ele mesmo deve mostrar-lhes os tesouros da biblioteca,
destacando educadamente suas belezas e principais características, suas
miniaturas e caligrafia, ficando, porém, atento para que não se arranquem
páginas. Quando estranhos pedem para ver livros por mera curiosidade, uma
demonstração simples será suficiente, a menos que o visitante seja alguém
distinto e influente. Quando grampos ou fechos se fizerem necessários, deve
cuidar para que sejam providenciados sem demora. Nenhum livro pode ser retirado
da biblioteca, a não ser por ordem expressa do Duque, devendo o bibliotecário
cuidar para que se dê recibo escrito a cada volume e para que seu retorno
ocorra em perfeito estado. Quando da visita de muita gente, ficar particularmente
atento para que não se roubem livros.
A fama da erudição
de Guidobaldo atraiu muitos estudiosos à sua corte, e
trabalhos sobre os mais variados temas foram-lhe dedicados por destacados
escritores. A reimpressão de antigo trabalho astronômico de Maternus
e um Tratado sobre a Dignidade e o Ofício de um Cardeal,
por Paolo Cortesio foram-lhe dedicados. A ele o
venerável pintor Piero della
Francesca dedicou a obra sobre os Cinco Corpos, uma aplicação prática das
proposições de Euclides à arte, solicitando-lhe o Duque que pusesse seu libellus “num dos cantos, como humilde serviçal dos
inúmeros livros de sua vasta biblioteca”. Ainda, o concidadão de Piero e amigo de Leonardo, Fra
Luca Pacioli, de Borgo San Sepolcro, dedicou seu grande
trabalho matemático, a Somma di Aritmetica, em 1494, ao
mesmo generoso patrono. Outra celebrada obra mencionada
por Cortegiano, o famoso Hypernotomachia
Polyphili ou O Combate do Amor no Sonho de Polifilo, um dos primeiros volumes saídos da prensa
Aldina, também foi dedicado a Guidobaldo. Um frade
dominicano de Veneza, Francesco Colonna foi o autor
desse estranho e forte romance, que reflete de modo
assaz vívido as diferentes correntes do pensamento italiano no século XV, seus
anelos pelo antigo mundo greco-romano, seu amor pelo fausto suntuoso e rico de
cores, seus sonhos de beleza e de aspirações por uma ordem perfeita. Foi
impresso por Aldo em 1499, às expensas de Leonardo Grasso de
Verona, cujo irmão servira na campanha de Bibbiena,
sob ordens de Guidobaldo, e dedicado por ele em
termos altamente elogiosos a esse Príncipe
“culto mais que os outros em grego e latim, no conhecimento da história antiga,
e igualmente notável por sua sabedoria e bondade”. O escolha
do erudito veronense era mui apropriada, e parece de todo adequado que uma
obra, saturada de mitologia clássica e ilustrada profusamente de admiráveis xilogravuras, ficasse associada à corte de Urbino.
Quatro anos mais
tarde o próprio Aldo dedicou sua coleção de Xenofonte
a Guidobaldo. Durante os enfadonhos anos de exílio que
o Duque e a Duquesa passaram em Veneza, ganharam muitos amigos entre o círculo
de patrícios cultos a que pertencia o impressor,
fazendo-se benquistos de todos que os conheciam intimamente. Quando, em
novembro de 1503, foram de novo chamados por um povo agradecido, Aldo
aproveitou-se dessa circunstância auspiciosa para dirigir elegante carta em
grego ao Duque, congratulando-se com ele pela volta à
casa e ao trono, e pedindo-lhe aceitasse o livro como sinal de devoção a sua
pessoa e admiração ao seu caráter.
Ó bom filho de
excelente pai! — exclama Aldo, citando a Ilíada —. Pudesse eu, ó
Zeus, pai dos deuses Atena e Apolo, ver dez reis e príncipes como este nestes tempos infelizes! Como não seria boa nossa sorte
se nossos estados fossem governados por reis que, segundo os preceitos do
divino Platão, fossem também filósofos! Vós pelo menos, sois soberana resposta
a essa descrição, uma vez que não tendes outra vontade senão fazer felizes
vossos súditos, e vosso povo, consciente disso, por duas vezes vos chamou de
volta ao vosso reino, depois que fostes vencido pelas
forças inimigas, a fim de serdes restabelecido em meio à alegria e aclamação
universais. Vede, então, quão bom, quão útil, mesmo a um monarca, ser filósofo!
A filosofia garante-nos ainda muitos benefícios maiores como, entre outros,
coragem inabalável em todas as mudanças e oportunidades da vida. ‘Que o Destino
e a Fortuna destruam todas as coisas mortais, para satisfazer seus caprichos: Hipóclides não ligará a mínima.’ Sim, na alegria como na
tristeza, o verdadeiro filósofo permanece o mesmo. Disto tem a
história dado muitos exemplos. Quanto a vós, conhecemos todos quão admirável tendes sido nas diferentes fases do
destino. Na prosperidade sempre fostes bom e justo, pleno de grata e imensa
benevolência; quando a Sorte não vos sorriu, como mereciam vossas virtudes,
vossa conduta tem sido tal que leva as pessoas a julgar que nada sofreis com a
adversidade. Basta-me apontar para vossa coragem e sabedoria, em todas as
adversidades que sofrestes, na hora em que fugistes de vossos inimigos para não
serdes capturado, e o próprio Deus veio em vosso
socorro. E não somos as únicas testemunhas de vossa coragem na má sorte. Veneza
toda tem-vos visto e admirado. Esta, pois, é uma das
vantagens da filosofia.
É como sinal do alto
conceito que tenho de vosso valor que vos ofereço Hellenica
de Xenofonte, obra
interessantíssima, que acabo de imprimir. O autor era tão eloqüente e
tão imbuído do espírito ático, que os gregos o
chamavam abelha ática. Também nisso ele se assemelha
a vós. Como vós ele era Capitão de exército, como vós era culto, bem educado e
distinto por suas virtudes. Estas são deveras nobres qualidades. Mas já falei
demais. Aceitai este presente, que espero vos irá
agradar, e que guardareis como lembrança de minha estima e de minha devoção a
vós e a vosso reino. Saudações!
Veneza, 14 de novembro de 1503.
(*) Texto selecionado e
traduzido por C. Giordano da obra The
Perfect Courtier — Baldassare Castiglione — His life and
letters, Julia Cartwright.